quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Blecaute

Alguns serviços, comodidades, benefícios da vida moderna, apesar de relativamente recentes na história da Humanidade - que dirá do planeta -, se naturalizaram de tal modo, que parecem ter sempre existido. Melhor ainda, parecem parte essencial da vida, sem a qual é impossível existir.
Um desses itens indispensáveis é a energia elétrica. E, quando ela falta, perde-se a civilidade - no sentido mais amplo da palavra.
Se a escuridão é voluntária, ou seja, se apagamos nós mesmos as luzes, via de regra reinam a tranquilidade e o silêncio. Na melhor das hipóteses, impera o segredo, dominam os sussurros, movimentos furtivos, semiescondidos, que não ousam ou não desejam dar-se à luz. Acendem-se velas, olham-se as estrelas, cantam-se canções.
Mas, se a escuridão é imposta, parece haver um retorno à hordas pré-históricas. A contemplação, a luxúria, o recolhimento e o segredo tornam-se impossíveis. Ao redor, todos parecem ansiosos, quase histéricos, incapazes de não falar, não gritar, não fazer movimentos bruscos, não acionar o telefone celular. Estamos todos vulneráveis, sozinhos, abandonados, e é preciso combater essa sensação de fragilidade.
Lanternas passam como fogos-fátuos pela janela, objetos são derrubados. O caos, o medo, a balbúrdia estão em toda a parte. Como se aquela escuridão completa, involuntária, representasse a própria morte.
Agora durma com um barulho desses...

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