Depois que soube, talvez tardiamente, que não se pode confiar na memória, que elaboramos lembranças para preencher vazios, que misturamos fatos com sonhos, que podemos simplesmente ser induzidos a criar do nada as peças do quebra-cabeça do nosso próprio passado, acreditando piamente que elas de fato fizeram parte da nossa vida, bem... comecei a achar que o revisionismo histórico não apenas é válido como é inevitável. Já diziam que a verdade é subjetiva...
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Durante algum tempo, desejei apagar minhas memórias, como fizeram os personagens daquele filme. E, claro, muitos me disseram que isso seria um erro - aliás, é mais ou menos essa a mensagem do filme - porque aprendemos com as lembranças e, sem elas, o presente parece não fazer sentido, estamos numa espécie de vácuo simbólico.
Por outro lado, sempre me debati com o princípio budista e da yoga sobre deixar de lado o passado e o futuro e viver o momento; estar sempre inteiro em cada instante, e nunca se perder num apego ao que passou nem ansiar pelo que está por vir. Porque, embora seja uma linda meta, para mim é virtualmente impossível e até indesejável viver num eterno presente, como senão houvesse ontem nem amanhã.
Mas, de fato, com o passar do tempo, observo um fenômeno no mínimo intrigante. Os acontecimentos do passado, as pessoas, os sentimentos, tudo o que foi profundamente marcante numa época qualquer da minha vida, e que eu acreditei que nunca deixaria de ser parte fundamental do que sou, se transforma em algo tão fugidio como um sonho.
Tenho uma dificuldade real de saber se aquilo foi verdade, se os fatos ocorreram, se me senti daquela maneira, se aquelas pessoas, seus nomes e rostos, suas atitudes, realmente existiram.
O que me prendia a essas lembranças que me escapam eram sentimentos que se esgotaram. E elas então caem num outro compartimento da minha memória, esmaecem.
O que mais me impressiona nesse processo é que se trata de lembranças realmente importantes, para o bem ou para o mal. E eu simplesmente as descarto. Involuntariamente, mas também irremediavelmente. Elas fazem parte de mim porque as vivi, mas não as sinto como tal. Elas parecem externas, quase cenas de um filme que vi há tanto tempo que não consigo mais lembrar direito nem o enredo que as concatena.
É chocante como eu consigo abrir mão assim da minha própria vida...
Cada um no seu quadrado.
5 dias atrás
1 comentários:
O meu passado é meu!!! Abraço ele todinho, com tudo de bom e tudo de ruim, que no final é sempre positivo. E que não apareça ninguém querendo que eu me livre de alguma coisa que guardei dele. Afinal, a essa altura da vida, sou mais a minha vida do que qualquer alguém.
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