quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre a perda

É impressionante como a perda chacoalha as estruturas mais fundamentais da existência humana. Como ela consegue ser uma ruptura sempre drástica e brutal, mesmo que aguardada, às vezes até (secretamente) desejada.
É fascinante observar como ela turva os sentimentos, distorce a visão, cria memórias inexistentes, pinta quadros totalmente surreais. Como ela instala à nossa frente um espelho mágico, no qual se reflete apenas aquilo que desejamos, inconscientemente, desesperadamente, para amainar a tristeza e o luto. Para nos consolar frente à nossa própria vulnerabilidade e frente à falta de sentido do universo.
É aterrorizante como nos apegamos a ela para nutrir falsos amores, saudades que queríamos muito sentir de verdade. Tudo isso que, se existisse sem a perda, nos faria pessoas melhores.

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Quando ele chegava tarde e não ligava, quando a abandonava nas noites de vento, sentindo apenas o frio úmido no lado vazio da cama, fingindo que dormia enquanto aguardava o sobressalto da chave na fechadura, ela fantasiava que havia sido assassinado ou que morrera num acidente. Que seu corpo estava jogado, sem a carteira e o relógio, em alguma vala de rio, ou que jazia inerte e despedaçado nas ferragens de um ônibus ou do carro.
O pensamento a sossegava, e ela quase sorria se imaginando a sofrer essa perda.

2 comentários:

Z, disse...

O interessante da perda, é que mesmo com todos os quadros já pintados, muda a perspectiva de quem vê, para que seja mais suportável...

Mas não muda tudo, o que era ruim continua ruim, ainda que fique mais transparente.

Mariana disse...

Com certeza...
A propósito, escrevi inspirada por seu poema "Indo Embora". A perda, sobretudo a morte, é um tema que me fascina tanto, que não consigo ler muito sobre ele...
Beijos