terça-feira, 16 de março de 2010

Discurso

Às vezes o discurso se constrói completamente a priori. Fruto de incontáveis batalhas reflexivas, de idas e vindas, da busca obsessiva pela palavra adequada, pelo tom correto, pela ordem exata, pelas escolhas que bastam - nem pecam pelo excesso, nem escasseiam.
Depois de horas de alienação e de inúmeras noites mal dormidas, o texto está coeso, edificado, está encadeado na cabeça, escrito, em meio a rasuras, no papel, passado a limpo no computador, na ponta da língua. Ele existe. Se fez ideia.
Mas ele não sai. Ele não vira. Não acontece. Não se concretiza. Morre antes mesmo de nascer, no silêncio da hesitação.
E, no fim, é melhor assim.

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