sexta-feira, 12 de março de 2010

Realidade caligráfica

Escrevo porque me apego.
Me apego às lembranças, às pessoas, aos detalhes fugidios do cotidiano, aos cheiros, às lágrimas que derramo e àquelas que engulo a seco, aos pensamentos que me perpassam como raios cortam o céu - rápidos, violentos, às vezes iluminadores, quase sempre amedrontadores. Me apego às emoções e indignações, às músicas, aos sorrisos e até às vicissitudes do tempo.
Tudo o que escorre, que se esvai, que se perde e que é passível de transmutação pelos caprichos da memória. Do mais corriqueiro ao mais extraordinário. Tudo o que é banal ou marcante. Tudo o que vale e o que é lixo. Tudo isso que é a minha vida, e um dia nada será, senão saudade e esquecimento.
Quem me dera conseguir escrever tudo. Dar a esses cacos de existência uma inteireza sólida na caligrafia. Investir o etéreo de uma eternidade corpóera, vincada em preto sobre branco. Guardar para sempre o que, mal ocorreu, já se dissolve e criar uma realidade imune ao tempo e à morte, que nos rouba um pouco de nós mesmos a cada segundo que passa.

1 comentários:

Zanom. disse...

Que lindinho, lin...

O interessante é que quando se lê registros próprios de lembranças, o esquecimento já faz com que a leitura não seja a mesma.

Mas é uma boa forma de lidar com o tempo.