Esta é uma história verídica.
Eu tinha 25 anos e era uma repórter iniciante (foca, no jargão jornalístico) na editoria de "Cotidiano", da "Folha de S. Paulo".
Havia chegado às 10h no jornal; quando deu umas 18h, começou a chover forte. Naquela época, os repórteres ainda iam para as ruas cobrir os efeitos das chuvas de verão, que são praticamente íntimas dos paulistanos, todo ano estão lá, indefectíveis. Meu editor me chamou e me mandou entrar no carro com um fotógrafo e ir para onde estavam os alagamentos - eles iam ficar me dizendo os locais pelo celular.
Depois de rodar um pouco sem encontrar grandes catástrofes, me ligam e avisam que havia ocorrido um desabamento numa invasão próxima a umas torres da Eletropaulo. Eu devia ir para lá, ver o que estava acontecendo.
Eu era uma menina no seu primeiro emprego dos sonhos. Saia lápis rosa de florzinha, com uma fenda estratégica atrás, blusinha cinza, sandália anabela... Chego ao morro por cima, preciso descer, mas chove, escorrega, eu estou de salto, e a escadinha não me parece nada segura. Chamo um senhor que passava e peço ajuda. Chego ao local do suposto desastre, onde já estavam alguns "coleguinhas" (jargão jornalístico para outros repórteres).
Chovia, fazia frio, minha saia já havia rasgado e minha sandália preta estava marrom de lama. As folhas do meu bloquinho começavam a colar umas nas outras por causa da água.
O carro dos bombeiros estava no local, mas vazio porque eles estavam tentando resgatar as pessoas cujas casas tinham sido destruídas pela chuva. Cujas vidas tinhas sido carregadas pela lama.
Eu estava meio em choque. Desnorteada e barateada. Cada hora chegava um bombeiro com um número diferente de mortos. Cada hora eu ligava para o jornal mudando o número, e a editora-assistente já cogitava me espancar e demitir no dia seguinte por isso.
Disseram para mim: "fique aí para contar os corpos".
Os corpos.
O que mais me impressionou foi o cheiro da lama, um cheiro podre, de morte, de decomposição, de algo que não é (mais) humano. Era insuportável, eu tinha vontade de vomitar, eu tinha vontade de chorar, e o fotógrafo cochilava no banco do carro.
Não lembro de desespero nem choro, como os que vi nos últimos dias nas imagens dos desabamentos no Rio e em Niterói. Lembro, sim, de um silêncio pertubardor e dos corpos rolando morro abaixo, na lama. Pessoas de lama, se decompondo na chuva.
Não havia lona preta o suficiente para cobri-los. E o cheiro era o cheiro duro da realidade.
Terra da felicidade
1 semana atrás
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