"Como você sabe, eu gosto bastante de histórias em quadrinhos, principalmente sobre super heróis. Eu acho fascinante toda essa mitologia que envolve os super heróis. Veja por exemplo meu super herói favorito: Super Homem. Não é uma grande revista, nem é particularmente bem feita, mas a mitologia... A mitologia não é apenas maravilhosa, é única! (...) Um pilar da mitologia dos super heróis é que existem o herói e seu alter ego. Batman é, na verdade, Bruce Wayne, o Homem Aranha é, na verdade, Peter Parker. Quando ele acorda de manhã, ele é Peter Parker; ele precisa vestir uma fantasia para se tornar o Homem Aranha. E é nesse ponto que o Super Homem se destaca. O Super Homem não se tornou o Super Homem, ele nasceu Super Homem . Quando o Super Homem acorda de manhã, ele é o Super Homem. Seu alter ego é Clark Kent. Ele anda por aí com aquele grande "s" vermelho. É o cobertor em que ele estava enrolado quando era um bebê e foi encontrado pelos Kent. É a roupa dele. O que Clark Kent veste, os óculos, o terno, aquilo é a fantasia. É a fantasia que o Super Homem usa para se misturar aos humanos. Clark Kent é como o Super Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent? É fraco, inseguro, um covarde. Clark Kent é uma crítica do Super Homem a toda a Humanidade (...)".
******* A tradução é minha, mas a genialidade do diálogo é do Quentin Tarantino. Depois da argumentação sobre ser ou se tornar super herói, Bill diz a Beatrix que ela não pode fugir à sua natureza de assassina. Ela pode até tentar ser uma pessoa convencional, que se casa com um mané qualquer no interior e faz churrascos no fim de semana, mas, no fundo, ela será sempre uma assassina e é inútil tentar mudar isso. Como depois do diálogo ela mata Bill, todos sabem disso, evidentemente a hipótese se confirma, mais ou menos como aquela história do escorpião e da rã e como a música do Caetano sobre a dor e a delícia de ser o que se é. Às vezes acho que, quando passamos a ter alguma reflexão subjetiva (e a reflexividade é o que nos caracteriza, nós, pós-modernos urbanos e escolarizados), começamos a enxergar a nossa natureza com mais clareza e buscamos mudar o que não nos agrada, nos prejudica e/ou não é social e culturalmente aceito. A psicologia nos ajuda. A filosofia nos ajuda. Até o dinheiro e o consumo nos ajudam nessa tarefa. Tentamos nos tornar algo, um "outro", que nos parece melhor. Mas o quanto conseguimos de fato transformar a nossa natureza? Ou, por outro lado, o quanto conseguimos aceitar a nossa natureza e lidar com seus encantos e seus limites? Afinal, até mesmo o Super Homem tem problemas...
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