segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Projeto conjunto

Eu acredito em dividir a vida, em ter um plano conjunto. E tanto melhor se essa cumplicidade se converte em projetos práticos. É mais diverto assim.
Pensando nisso, compartilho aqui mais uma iniciativa DIY (para ver a anterior, clique aqui), desta vez a quatro mãos.
A ideia, mais uma vez, veio dos blogs de decoração e estilo de vida que frequento (lista ao lado): pintar algo, no caso a porta que separa a cozinha da sala, com tinta de quadro negro. Zilhões de pessoas já fizeram isso. É meio "tendencinha" nesse fantástico mundo das moças ricas, bem casadas, felizes e com vidas interessantes que têm na blogosfera o ambiente ideal de proliferação.
Enfim, foi assim:

Esta é a porta no original, branquinha. Ela fica quase sempre aberta, exceto quando tenho surtos de faxina.

O material: uma lata de Coralit fosca preta (é tinta de pintar madeira, pelo que vi na internet, só existem duas cores foscas, a preta e a verde - achamos que a preta ia combinar mais), uma lata de Coralraz (herança da pintura do apartamento), uma bandejinha de pintura (pequena) e dois rolos de espuma (os dois deviam ser de 15 cm, mas compramos um de 9 cm por engano). Gasto total: menos de R$ 30. E ainda sobrou Coralit para mais uma cem demãos.


Íamos pagar alguém para pintar, mas Dolly nos convenceu de que nós éramos capazes de fazer. Que não ia precisar nem lixar - o que efetivamente não precisou. Apenas aconselho tirar a maçaneta. Eu, preguiçosa, decidi apenas forrar com fita crepe, mas, na hora de tirar a fita, depois da pintura, acabei fazendo várias "feridas" no entorno da maçaneta. Depois corrigi com cotonete (mais uma dica de Dolly), mas não ficou tão legal quanto eu gostaria.

A lata de Coralit manda esperar oito horas entre as duas demãos, mas esperamos só umas cinco no máximo. Acho que não fez diferença. Mais uma dica é usar só o rolo maior, para ficar mais uniforme e com menos "emendas".


Tchan-ram! Agora os filhos das amigas têm onde se divertir nos eventos domésticos. Não precisam mais tentar rodar o gato pelo rabo... (brincadeira, que eles não fazem isso!).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Fantasia

Sentou-se em frente ao espelho enquanto, da rua, ouviam-se tamborins, metais, microfonia de vozes - uma algazarra, um caos musical.
Começou pela base branca, para esconder as marcas da vida e as expressões que poderiam entregar sua verdadeira identidade de desdém e tédio.
Em seguida, fez os olhos, realçando o contorno, para dar a ilusão de que estavam de fato abertos.
Avermelhou a boca, porque precisava parecer vivo.
Concluiu com o nariz, onde depositou o bom humor que não tinha.
A peruca colorida era uma alegoria da felicidade perdida ou nunca vivida.
E saiu para a festa, como todos os anos, infalível.
Meu palhaço de estimação.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Segunda ensolarada

Ainda não são 8h da manhã, e o rastro da suave brisa deixado no ar pela chuva da noite anterior ainda não foi totalmente apagado pelo calor do sol inclemente.
Eu ando devagar, equilibrando-me sobre as pedras portuguesas, tentando não gastar energia à toa, afinal ainda é segunda-feira.
Eu suspiro e, mentalmente, entro com Jim Morrison: "music is your only friend" [suspiro] "un...till the end". Balanço a cabeça discretamente, num sinal quase imperceptível de que acompanho o ritmo. Mas meus olhos estão vazios.
Ao meu lado, passa um senhor puxando uma carroça grande, cheia de papelão. Rosto entre cansado e sonolento, camiseta desgastada de time de futebol europeu, muito mais ânimo que eu. O que vocês queriam? Não se puxa carroça sem disposição!
Não consigo parar de pensar em como ele e eu somos, no fundo, iguais.
Gastamos nossa vida e nosso potencial pessoal trabalhando em algo que não tem o menor sentido, apenas para pagar por serviços e produtos que alguém nos convenceu que são indispensáveis. Ele faz trabalho braçal sem refletir, eu faço trabalho intelectual sem refletir.
A semana toda. Todas as semanas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Três em um nota mil

Em tempos de vacas magras, não tenho tido, digamos, punch financeiro para comer fora com a frequência que costumava. O lugar tem que ser em conta, mas não topo qualquer coisa, ou seja, fica meio difícil. Então descobri a Moviola. Aliás, já tinha descoberto no ano passado, mas ela só melhora no meu conceito a cada visita.
É uma locadora, que é uma livraria, que é um bistrô. Não é nem uma locadora super bem servida, nem uma livraria com um acervo fantástico, nem um bistrô de fazer enlouquecer as papilas gustativas, mas a soma dos três acaba dando uma opção nota mil e com um preço bem justo - além do ar-condicionado, indispensável nesses tempos infernais, do ambiente silencioso, raríssimo no balneário, e da boa música, no volume ideal.
Já provei as bruschettas, o croque-monsieur (batizado Monsieur Tati, em homenagem ao cineasta), a mini tábua de queijos (fina!) e o delicioso na medida sorvete Moviola - que vem com um harumaki de prestígio que é uma lou-cu-ra.
Além disso, tem umas cervejinhas bacanas, um café que vem acompanhado de água com anis (hummmm...) e um atendimento muitos degraus acima do padrão carioca (i.e., moças educadas, gentis e que não ficam te enchendo o saco para sair ou pedir outra coisa).
Por isso, e como no Rio a gente não sai do bairro nem para ir à esquina, a Moviola corre o risco de virar um dos meus points preferidos pelos próximos 15 anos!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Doi prá lá, dois prá cá

Um valsa, o outro salsa,
Tropeçam, titubeiam, erram o compasso.
Um avança rápido, o outro se perde no tempo,
No passo. "Eu passo". O outro puxa.
Um leva o outro leve,
Um conduz e se contradiz,
O outro questiona e escapa por um triz
De um pisão no pé.
Um samba, o outro tanga,
As pernas se enroscam, se batem, desequilibram.
Um sabe as combinações, o outro as destrói,
Brigam. Em vão. A música continua.
E com ela a dança.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sobre lembranças

Depois que soube, talvez tardiamente, que não se pode confiar na memória, que elaboramos lembranças para preencher vazios, que misturamos fatos com sonhos, que podemos simplesmente ser induzidos a criar do nada as peças do quebra-cabeça do nosso próprio passado, acreditando piamente que elas de fato fizeram parte da nossa vida, bem... comecei a achar que o revisionismo histórico não apenas é válido como é inevitável. Já diziam que a verdade é subjetiva...

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Durante algum tempo, desejei apagar minhas memórias, como fizeram os personagens daquele filme. E, claro, muitos me disseram que isso seria um erro - aliás, é mais ou menos essa a mensagem do filme - porque aprendemos com as lembranças e, sem elas, o presente parece não fazer sentido, estamos numa espécie de vácuo simbólico.
Por outro lado, sempre me debati com o princípio budista e da yoga sobre deixar de lado o passado e o futuro e viver o momento; estar sempre inteiro em cada instante, e nunca se perder num apego ao que passou nem ansiar pelo que está por vir. Porque, embora seja uma linda meta, para mim é virtualmente impossível e até indesejável viver num eterno presente, como senão houvesse ontem nem amanhã.
Mas, de fato, com o passar do tempo, observo um fenômeno no mínimo intrigante. Os acontecimentos do passado, as pessoas, os sentimentos, tudo o que foi profundamente marcante numa época qualquer da minha vida, e que eu acreditei que nunca deixaria de ser parte fundamental do que sou, se transforma em algo tão fugidio como um sonho.
Tenho uma dificuldade real de saber se aquilo foi verdade, se os fatos ocorreram, se me senti daquela maneira, se aquelas pessoas, seus nomes e rostos, suas atitudes, realmente existiram.
O que me prendia a essas lembranças que me escapam eram sentimentos que se esgotaram. E elas então caem num outro compartimento da minha memória, esmaecem.
O que mais me impressiona nesse processo é que se trata de lembranças realmente importantes, para o bem ou para o mal. E eu simplesmente as descarto. Involuntariamente, mas também irremediavelmente. Elas fazem parte de mim porque as vivi, mas não as sinto como tal. Elas parecem externas, quase cenas de um filme que vi há tanto tempo que não consigo mais lembrar direito nem o enredo que as concatena.
É chocante como eu consigo abrir mão assim da minha própria vida...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre a perda

É impressionante como a perda chacoalha as estruturas mais fundamentais da existência humana. Como ela consegue ser uma ruptura sempre drástica e brutal, mesmo que aguardada, às vezes até (secretamente) desejada.
É fascinante observar como ela turva os sentimentos, distorce a visão, cria memórias inexistentes, pinta quadros totalmente surreais. Como ela instala à nossa frente um espelho mágico, no qual se reflete apenas aquilo que desejamos, inconscientemente, desesperadamente, para amainar a tristeza e o luto. Para nos consolar frente à nossa própria vulnerabilidade e frente à falta de sentido do universo.
É aterrorizante como nos apegamos a ela para nutrir falsos amores, saudades que queríamos muito sentir de verdade. Tudo isso que, se existisse sem a perda, nos faria pessoas melhores.

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Quando ele chegava tarde e não ligava, quando a abandonava nas noites de vento, sentindo apenas o frio úmido no lado vazio da cama, fingindo que dormia enquanto aguardava o sobressalto da chave na fechadura, ela fantasiava que havia sido assassinado ou que morrera num acidente. Que seu corpo estava jogado, sem a carteira e o relógio, em alguma vala de rio, ou que jazia inerte e despedaçado nas ferragens de um ônibus ou do carro.
O pensamento a sossegava, e ela quase sorria se imaginando a sofrer essa perda.